Água para que te quero?

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O Cerrado é considerado o berço das águas brasileiras e ele está quase extinto. O que você está fazendo para impedir que isso aconteça?

Nesse sentido convidamos todos aqueles que para juntos unirmos forças em luta e defesa pela vida do CERRADO, ÁGUA e da HUMANIDADE. #Ninguém Morrerá de Sede…#Sem Cerrado, Sem água, Sem Vida. #Nao mecha com nossos rios, com o nosso povo. Venha para #Audiência Pública 01/12/17 às 9:00h #Correntina-Bahia 

O Brasil tem a maior reserva de água doce e potável do mundo. ela recebe o nome de Aquífero Guarani e está localizada no Centro-Leste do nosso continente. mas, não se engane: apesar de enorme (são 1,2 milhão de km2), ela não é infinita. Além de tudo, é abrigada pelo segundo maior bioma brasileiro, o Cerrado, que está em vias de ser extinto.

“Cuide da água. No futuro, ela vai valer mais do que o petróleo.”

A frase pode ser batida, mas ela é tão verdadeira quanto o motivo de ser um conselho certeiro: a humanidade está consumindo toda a água potável disponível no planeta.

Olhando de longe, a ameaça não parece ser, assim, tão assustadora. Afinal moramos no Brasil, país rico em recursos naturais e hídricos, não é mesmo? Errado.

Coloque uma lupa sobre o problema e já vai ser possível entender porque tem muita gente preocupada com o futuro que se desenha: o segundo maior bioma do Brasil, o Cerrado, está prestes a ser extinto. E se isso acontecer, provavelmente a humanidade toda vai sofrer as consequências.

SEM CERRADO, SEM ÁGUA, SEM VIDA

Não dá para falar de água sem falar de Cerrado. E para quem não conhece a fundo o bioma, pode até parecer estranho que um lugar composto de troncos baixos e retorcidos, que passa por incêndios naturais (provocados por queda de raios, por exemplo, que possui um impacto diferente das queimadas criminosas), seja considerado o berço das águas do Brasil.

Basicamente, esse é o Cerrado: o segundo maior bioma da América Latina (ocupa 22% do território brasileiro, segundo o Ministério do Meio Ambiente), extremamente rico em fauna e flora, capaz de abastecer 3 das maiores bacias hidrográficas da América do Sul e abrigar 3 dos maiores aquíferos do mundo, alimentando-os por meio de suas áreas de recarga, onde são reabsorvidas as águas das chuvas.

Considerada a savana mais rica em biodiversidade do mundo, ele fica no coração do Brasil e atua como elo entre quatro dos seis biomas do país: Mata Atlântica, Amazônia, Caatinga e Pantanal. Sua área ocupa, além do Distrito Federal, mais 11 estados brasileiros, concentrando 5% de todas as espécies do mundo e 30% da biodiversidade do país. Muitos dos animais dessa fauna só existem no Cerrado. No caso das aves, 90% delas só se reproduzem nesse habitat.

Tanta riqueza natural pode ser explicada por meio da história. O professor Altair Sales Barbosa, um dos mais profundos conhecedores do bioma, conta que “a história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado”.

A FLORESTA INVERTIDA

Os vários elementos do Cerrado convivem em perfeita harmonia e vivem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico (nível muito baixo de nutrientes); o solo depende do clima tropical subúmido (duas estações, uma seca e outra chuvosa); muitas sementes dependem do fogo, porque é ele quem quebra a dormência da maioria das plantas com sementes.

Duas características, no entanto, são determinantes para que o Cerrado seja um dos mais importantes biomas do Brasil: a capacidade que suas plantas têm de captar o carbono do ambiente e a capacidade das raízes de captar e reter água. E essas duas características o transformam em uma verdadeira floresta invertida.

Segundo o professor Altair, “de todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico”.

Dele também nascem vários rios pequenos que vão formando as bacias hidrográficas. A bacia do São Francisco, por exemplo, depende 97% das águas que nascem no Cerrado. Isso porque o solo facilita com que a água penetre profundamente nos lençóis freáticos, formando os aquíferos.

 

Os aquíferos são outro ponto de extrema importância quando se fala em Cerrado: toda a água captada e distribuída pelos aquíferos garante a sobrevivência de grande parte da população brasileira. Se o Cerrado não for preservado, a sobrevivência de nossa própria espécie estará ameaçada.

 

INVISIBILIDADE OU DESCONHECIMENTO?

Durante quatro décadas, o Cerrado perdeu metade de sua vegetação nativa. Apesar de ser considerado o celeiro do mundo, ações governamentais de ocupação e incentivo à agropecuária iniciadas ainda durante a ditadura militar permitiram que o Cerrado fosse desmatado sem grandes implicações.

A invisibilidade do bioma aliada ao desconhecimento de grande parte da população permitiu que projetos como o Matopiba (Plano de Desenvolvimento Agropecuário) levasse para o Cerrado grandes empresas e indústrias do agronegócio.

O resultado agora é bem visível: 50% da área do Cerrado já foi transformada em “área convertida”, ou seja: no lugar da vegetação nativa, pasto para gado e plantações. A colcha de retalhos que se formou, ora com mata nativa, ora com pastos, faz com que o bioma não consiga se manter ou reestabelecer sua biodiversidade depois de ter sido desmatado.

Outro grande problema que o Cerrado enfrenta com o agressivo aumento do agronegócio é a poluição das águas, do ar e dos solos. Os agrotóxicos utilizados nos monocultivos penetram e degradam o solo, além de contaminarem as nossas águas.

SIDROLÂNDIA/MT: AVIÃO FAZENDO PULVERIZAÇÃO DE AGROTÓXICOS SOBRE OS CAMPOS DE SOJA. FOTO: THOMAS BAUER

Esses produtos químicos poluem o ar e matam diversas das formas de vida que ali vivem. As abelhas nativas do Cerrado, que são as únicas que conseguem fazer a polinização das plantas nativas, já estão quase extintas. Isso significa que daqui a algum tempo novas plantas não vão mais nascer simplesmente porque não existirá abelhas para fazer a polinização das espécies.

As matas ciliares, que deveriam servir como corredores ecológicos de migração das espécies, têm sido degradadas. As margens dos rios foram ocupadas por ambientes urbanos. Assim, os sistemas agrícolas implantados pelo ser humano chegam até à margem de córregos e rios, degradando ainda mais o leito dos rios e provocando o assoreamento.

Ao observar as nascentes dos grandes rios, é possível ver que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Sobre esse assunto, o professor Altair faz um alerta: “Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francisco, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.”

 

A DESTERRITORIALIZAÇÃO E OS POVOS DO CERRADO

Com o incentivo governamental para que as grandes empresas cada vez mais utilizem o Cerrado para a produção de soja, cana, eucalipto, algodão e criação de gado, o interesse corporativo tomou conta do bioma.

E quando essas empresas chegam às áreas do Cerrado, o que acontece é a expulsão dos povos que lá vivem, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem de terras, as empresas e latifundiários adquirem milhares de hectares e expulsam os moradores tradicionais. Esse processo desestrutura comunidades inteiras.

Diferentemente do agronegócio, os povos e comunidades tradicionais do Cerrado utilizam a terra de forma a respeitar seus ciclos naturais. Os extrativistas (que vivem da terra) e as comunidades indígenas e quilombolas são os grandes defensores do bioma.

Cerca de 12,5 milhões de brasileiros que vivem no Cerrado, parte deles lutando diariamente para preservar e defender o bioma. Eles se consideram parte integrante da natureza e têm a consciência de que suas ações de preservação são fundamentais para que o Cerrado continue vivo.

 

PORTO ALEGRE DO NORTE (MT) – SR. ALCIDES APRESENTANDO PRODUTOS CULTIVADOS EM SUA COMUNIDADE. FOTO: THOMAS BAUER

 As comunidades praticam uma agricultura agroecológica, que utiliza os bens naturais para sua própria subsistência. Essas comunidades cultivam uma relação de respeito com a natureza. Quanto mais famílias e comunidades estiverem praticando esse tipo de agricultura, menor será o espaço ocupado pelas grandes empresas.

Os povos do Cerrado também lutam para manter viva sua cultura e tradição. É por meio delas que as novas gerações descobrem a importância do Cerrado para a preservação da vida no planeta e aprendem a se defender das grandes empresas e a lutar pelo bem comum de todos, que é a água.

 

AS CRISES HÍDRICAS SÃO O PRENÚNCIO DO FIM DA ÁGUA

Se você vive em alguma grande cidade brasileira, é possível que já tenha enfrentado algum problema de falta d’água.

As recentes crises hídricas, que assolaram o estado de São Paulo e agora o Distrito Federal, têm relação direta com o Cerrado. Segundo Marzeni Pereira, tecnólogo em saneamento da Sabesp, “a estiagem em São Paulo, com certeza, tem relação com o desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Obviamente, sempre que há desmatamento se reduz a evaporação de água pela evapotranspiração das árvores. O Cerrado brasileiro sofreu muito com a devastação promovida pelo agronegócio.

Para se ter ideia, no ano passado, em torno somente de quatro produtos (soja, carne, milho e café), o Brasil exportou cerca de 200 bilhões de metros cúbicos de água. Não produziu, apenas exportou, ‘água virtual’, como se diz. Tal número significa abastecer São Paulo por quase 100 anos, apenas com a quantidade de água gasta por esses quatro produtos.”.

Além disso, a irrigação intensiva de larga escala provocada pelo agronegócio no Cerrado reduz os afluentes dos grandes rios, que sofrem ainda mais com a redução da água. Como o Cerrado faz a ligação entre quatro biomas brasileiros e abastece 8 das 12 grandes regiões hidrográficas do Brasil, o resultado só pode ser um: a falta de água até para consumo humano.

 

ÁGUA: DE DIREITO HUMANO A COMMODITY

A receita para equilibrar a demanda versus a conservação é cuidar dos mananciais. Não basta apenas que a população faça um controle de seus gastos de água, evitando o desperdício: é preciso que o agronegócio e as empresas também sejam responsabilizados por seus atos.

Isso implica em adotar medidas mais sérias de proteção aos mananciais e aquíferos, a inclusão das grandes empresas em cotas de racionamento (atualmente, as empresas não entram nos racionamentos propostos pelo governo), impedir que o agronegócio e as empresas utilizem a água dos grandes rios para irrigação e frear o desmatamento para criação de grandes áreas de cultivo. A própria legislação ambiental vigente abre precedentes para a contínua degradação do Cerrado.

ÁGUA BOA (MT) – GRANDES ÁREAS DEVASMATADAS PARA O CULTIVO DE SOJA. FOTO: THOMAS BAUER

Por mais incrível que possa parecer, o bioma mais degradado e que mais precisa de proteção ainda não é Patrimônio Nacional. Isso significa que políticas como o Matopiba, que é um plano de desenvolvimento que coloca o Cerrado como área de expansão da fronteira agrícola, vão continuar existindo enquanto nada for feito para proteger o bioma.

Em 50 anos, isso pode significar o desaparecimento não só do Cerrado como bioma, mas também da água e da vida. Sobre essa questão, o professor Altair é taxativo: “A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas ‘brotam’ do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você pode contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo”.

 

CERRADO: PATRIMÔNIO NACIONAL

Por incrível que pareça, apesar da importância do Cerrado para o Brasil e para o mundo, o bioma ainda não foi transformado em Patrimônio Nacional.

E enquanto isso não acontece, as grandes empresas podem continuar desmatando o Cerrado sem maiores implicações legais e jurídicas.

No vídeo ao lado, você vai poder ver como a degradação e o desmatamento desenfreados afetam um dos mais ricos e importantes biomas brasileiros e como a abundância de água e a riqueza genética do Brasil Central podem contribuir para mudar a maneira de explorar a região, assegurando a sobrevivência do Cerrado.

 

CRÉDITOS:

Coordenação: Coletivo de Comunicadores 

Texto: Bruna Toscano/Estúdio Massa

Ilustração: Mauro LTJr/Estúdio Massa

Design: Letícia Luppi/Estúdio Massa

Movimentos sociais questionam utilização da água como mercadoria.

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“O povo sabe que precisa de um modo de convivência que promova o Bem Viver e aponte para a Terra Sem Males. Este processo será construído democraticamente desde as comunidades autogestionárias até o nível nacional e além”.

Os participantes do seminário ”organizado pelo Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS) e pelo Movimento de Educação de Base (MEB), divulgaram carta onde questionam o atual modelo “desenvolvimentista” que privatiza a água a grandes projetos. “A água como mercadoria concentra lucros e promove carência, doença e morte”, aponta o texto. “Megaprojetos limitam o acesso das populações à água, reduzem ou eliminam os territórios pesqueiros, privatizam, poluem os lençóis freáticos e salinizam as águas”.

Na última semana, de 16 a 18, representantes de movimentos e pastorais sociais se reuniram em Brasília (DF) para socializar informações sobre os biomas e construir estratégias para construção de um projeto de Bem Viver. Entre as ações repudiadas pelo grupo está o Fórum Mundial da Água (FMA), marcado para 18 a 23 de março de 2018, em Brasília. Segundo o texto, a iniciativa não oferece soluções efetivas “nem para a crise hídrica, nem para as mudanças climáticas”. “Governantes, grandes empresários e banqueiros têm apresentado falsas soluções, que mascaram sua responsabilidade pelo problema”. Paralelo ao evento patrocinado por multinacionais, na luta contra a farsa ambiental do FMA, propõe-se o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA)

Na carta divulgada no final do encontro, 50 organizações questionam iniciativas que utilizam dos recursos hídricos para o lucro “e causam morte de habitats, o biocídio e o hidrocídio”. “A expansão monopólica dos bancos privados na financeirização e no controle de ativos das empresas, o agronegócio, a mineração, a indústria e a infraestrutura energética (hídrica, termo e nuclear), voltados para os lucros e não para o atendimento das necessidades humanas”, assinala a nota.

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que 70% da utilização da água doce que circulam pelo ciclo hidrológico destina-se para a agricultura irrigada, atividades do agronegócio como monocultura e pecuária. 19% vão para indústrias hidrointensivas, como usinas nucleares, e grandes emissoras de CO2 como termelétricas, siderúrgicas e refinarias de petróleo

Há resistência!

O seminário mapeou iniciativas concretas de conservação dos biomas, de resistência a lógica de devastação imposto pelo “livre” mercado, “com sua ideologia do crescimento econômico ilimitado”. Reflorestamento, recuperação de áreas, produção de alimentos com agroflorestas, tratamento de resíduos, manejo sustentável dos mananciais foram alternativas presentes nos debates.

“São exemplos de combate heroico aos ataques do capital à biodiversidade, ao ambiente e à água, apoiado pelo Estado: os Munduruku e seus vizinhos ribeirinhos, na defesa do Tapajós; comunidades de Correntina e da Bacia do Paraguaçu (BA) contra o agro e hidronegócio; os quilombolas do Rio dos Macacos pelo acesso à água em Salvador (BA); populações do entorno do Cauipe/Pecém (CE), Porto do Suape (PE), ThyssenKrupp/Vale, Guapiaçu, Porto do Açu (RJ) e Piquiá de Baixo (MA) contra grandes complexos industriais; comunidades de Santa Quitéria (CE) e Caetité (BA) contra a expansão da mineração de urânio”.

“Essa nova visão de desenvolvimento que nos propõe o Bem Viver nos inspira a continuar atuando em defesa da democracia plena, contra a privatização da água e pela soberania territorial, alimentar, genética, hídrica e energética”, encerra o documento.

Leia aqui o documento.

Por Guilherme Cavalli, da assessoria de comunicação – Cimi (organização que compõem a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado)

Pesquisador da Fiocruz Pernambuco fala sobre o protesto em Correntina (BA) contra o uso indiscriminado de água para irrigação

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‘Fundamentalmente, foi a omissão do Estado que levou a isso’

No dia seguinte ao feriado de Finados, em 2 de novembro, vários jornais denunciaram a “invasão” de pessoas nas Fazendas Igarashi e Curitiba, no distrito de Rosário, município de Correntina (BA), mostrando máquinas, instalações e pivôs – equipamentos que tiram a água dos mananciais – quebrados e incendiados. O que não foi evidenciando, no entanto, é que milhares de moradores da Comunidade Ribeirinha do Rio Arrojado entraram nas duas grandes fazendas para protestar contra o uso indiscriminado de água para irrigação, que causa uma crise de abastecimento na cidade e o esgotamento dos recursos hídricos da região, provenientes do rio São Francisco.

Além da exploração hídrica, a área foi completamente devastada pelo agronegócio, levando à extinção da fauna e flora, restando hoje 48% da sua mata nativa. A constatação é feita por André Monteiro, pesquisador do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães da Fundação Oswaldo Cruz (CPqAM/Fiocruz, que foi para a cidade acompanhar outra manifestação, realizada no dia 11 de novembro, que levou cerca de 10 mil pessoas às ruas de Correntina para denunciar o baixo nível do rio Arrojado. Para ele, que gravou na ocasião o mini-documentário ‘Insurgentes’, a mobilização de grande parte da pequena cidade, que ganhou atenção nacional, é resultado da omissão do Estado, que não impõe limites à “hiperexploração hídrica”.

Qual é o panorama dos recursos hídricos na região de Correntina?

Há uma hiperexploração hídrica em decorrência de um esgotamento progressivo que vem acontecendo na região. Há tempos, vários especialistas denunciam que o desmatamento do Cerrado têm levado à perda de vazão nos rios e a um empobrecimento do aquífero da região, o Urucuia, que é o maior contribuinte do rio São Francisco. Esse é um processo antigo, mas que a partir de 2008 se acelerou por conta da exportação de commodities agrícolas, como a soja.

As tecnologias utilizadas na irrigação das fazendas, como o pivô central, são perdulárias no uso da água, de baixíssima eficiência. Além desse uso abusivo de água, o desmatamento tem consequências diretas nos volumes disponíveis porque provoca a compactação do solo, uma infiltração baixa, muito escoamento superficial. Chegou a um ponto que os rios do Cerrado começaram a secar.

E o que se vê em Correntina é exatamente isso: uso predatório dos recursos hídricos. As fazendas da região constroem piscinas imensas, de cerca de mil metros cúbicos. Em cada uma, há uma bomba associada. Há lugares com 24 piscinas e, consequentemente, 24 bombas ou pivôs [de irrigação] ligados de uma vez só. Então, quando eles ligavam as bombas, o rio não tinha vazão suficiente. Em várias situações, o rio secava completamente em um trecho por conta dessa irrigação. E depois de algumas horas, voltava a fluir.

A população da cidade protesta pelo menos desde 2015 contra esse abuso. Queriam chamar atenção dos órgãos ambientais de controle, do próprio Ministério Público. Mas, desde então, praticamente nada foi feito. E aí foi muito impactante quando eu vi aquela manifestação de mil pessoas na Fazenda Igarashi. Não é comum tanta gente, é algo muito forte do ponto de vista da indignação, quando a população se mobiliza assim.

Em sua avaliação, o que significou esse protesto?

Na manifestação que houve no sábado [11], e também conversando com pessoas na rua, o sentimento da comunidade é que que todos eles invadiram aquela fazenda. Quando eu cheguei lá, fui jantar na primeira noite e perguntei ao garçom: “E a manifestação?” E ele: “Foi a gente que fez.”; Eu disse: “Mas você foi?”; e ele: “Não fui pessoalmente, mas fui porque estava lá com todos eles, toda a população estava”.

Eu pensei como é incomum uma situação em que uma grande parte da população se reconhece, se identifica com o grupo que protesta invadindo uma fazenda. Não dá para dizer que havia um movimento, que havia um grupo. Na ocupação foram mil pessoas. E na medida em que depois do dia 2 de novembro, a mídia tradicional foi em cima, inicialmente taxando como se tivesse sido o MST [Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, que negou participação no ato mas apoiou publicamente a luta dos moradores]. Foi um déjà-vu da década de 1990, no governo Fernando Henrique, essa demonização do MST… E você tem um discurso de algumas autoridades chamando a população de uma forma geral de ‘terroristas’. Isso, a meu ver, gerou uma indignação muito grande. Foi a catalisação de um processo a partir de indignação pela exaustão dos recursos hídricos, várias comunidades tradicionais e agricultores relatam que não tem mais condições de criar seu gado por conta da falta de água.

Já poderíamos dizer que na região há rios secos?

Na manifestação, as pessoas falavam nomes de riachos que já estariam mortos. Isso é grave, o que só comprova que o uso de pivôs já devia ter sido superado há muito tempo. Além disso, a prática de construir grandes piscinas, além de levar o rio à exaustão, já chegou ao limite. Já têm até propriedades abandonadas pelo agronegócio, porque não tem água suficiente também para ele. Só para termos uma ideia, a Fazenda Igarashi, em 2015, captava 180 mil metros cúbicos de água por dia, fazendo uso de 32 bombas.

A Associação Ambientalista Corrente Verde, em Correntina, chegou a entrar com uma ação civil pública pedindo a suspensão da captação de água em uma fazenda da empresa Sudotex. A Justiça chegou a conceder uma liminar autorizando, mas logo depois o Tribunal de Justiça pronunciou-se contrário à decisão, dizendo que o empreendimento seria inviabilizado e a empresa poderia se transferir e, consequentemente, a região perderia empregos. E quem recorreu da primeira decisão foi nada mais nada menos do que o Instituto Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). Não foram os proprietários da fazenda…

Há uma chantagem de cunho econômico que não é de hoje. O Estado, em todos os níveis, tem uma centralidade em relação às commodities e não cede em nada do ponto de vista socioambiental, usando todo o seu aparato para dar continuidade a um modelo de desenvolvimento do agronegócio, da mineração e de outros processos produtivos como de energia e água, o que só faz aumentar os conflitos no campo relacionados a povos e comunidades tradicionais. Isso vai além da conjuntura política atual, vem já há bastante tempo…

O Brasil irá receber pela primeira vez o Fórum Mundial da Água, que acontecerá em março em Brasília, e organiza um fórum alternativo paralelo com a participação de movimentos sociais, entidades ambientais e sindicatos para debater o papel da água. O protesto em Correntina, portanto, impulsionaria um debate mais qualificado no fórum paralelo e deixaria o Fórum Mundial da Água constrangido em relação a esta correlação de forças entre os interesses do agronegócio e da população?

Eu tenho participado de alguns protestos. Além disso, estamos construindo o Dossiê das Águas, junto com os movimentos sociais. Eu acho que tem um processo que ainda não está maduro como deveria. A origem do Fama [Fórum Alternativo Mundial da Água], sua organização e peso político, está mais ligado a movimentos urbanos e sindicatos de empresas de saneamento. E esses são conflitos do campo. Parece-me necessário que haja um amadurecimento nesse sentido, para dar conta da complexidade e da urgência da questão da água, tanto os riscos de privatização dos serviços, tanto a apropriação privada do bem comum.

A água tem assumido um caráter transversal em diversos movimentos sociais e também na academia, que antes não discutiam a água. Entidades e grupos que não tinham a água como objeto de estudo, passaram a incorporá-la pela emergência da situação, pela explosão dos conflitos. Isso está relacionado ao modelo de desenvolvimento. Eu acho que precisamos para o FAMA de uma articulação mais madura desses movimentos urbanos e do campo.

Confira a manifestação realizada no dia 11 de novembro

Por Maíra Mathias – EPSJV/Fiocruz

Seminário ‘Laudato si’ reúne Igreja da Amazônia em Brasília.

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Brasília (RV) – A Rede Eclesial Pan-Amazônica realiza entre os dias 17 e 19 de novembro o Seminário Geral Laudato Si. Representantes dos 16 Seminários realizados em todos os Regionais da CNBB da Amazônia Legal desde 2016 e convidados farão uma síntese dos trabalhos e será prospectado a caminho a seguir.

Dirigidos a estudantes, universitários/as, agentes de pastorais, autoridades e toda a sociedade civil, a intenção da REPAM foi despertar a responsabilidade em relação às atividades econômicas e sociais da região e às grandes questões ambientais da nossa Casa Comum.

Depois de tecer redes e estabelecer intercâmbios, este é o momento de um balanço, nos três dias de Seminário Geral.

A Irmã Irene Lopes é a assessora da Comissão Episcopal para a Amazônia e da REPAM, e a principal articuladora dos Seminários, tendo participado de todos.  Ouça-a:

“O objetivo específico dos Seminários era tornar a REPAM conhecida para que em conjunto ela pudesse fortalecer as iniciativas socioambientais da Igreja e da sociedade civil na Amazônia, possibilitando um intercâmbio de saberes e caracterizando o trabalho em rede. Nós percebemos que ao longo destes dois anos em que nós fizemos estes Seminários isto aconteceu de fato. Percebemos também que com o fortalecimento da Rede na região, muitas situações foram sendo modificadas. Em vários Seminários, os participantes diziam: ‘A REPAM veio para unir as nossas pastorais, nossos movimentos, aquilo que já existe de vida na Amazônia’. Temos que agradecer a Deus pela oportunidade que tivemos neste tempo de estar presente na Amazônia de uma forma diferente. Pudemos estar frente a frente com as lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhos, quebradeiras de coco…. Temos muito o que oferecer com a Rede e muito também o que agradecer.

O Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da REPAM, está em Brasília participando do Seminário geral Laudato si. Confira aqui o seu convite:

Mudanças climáticas: bispos dos EUA desiludidos com governo Trump

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Bonn: estátua de madeira diante da sede da COP23 – AP

Washington (RV) – “O dever de cuidar do bem comum vai além de nossos confins, sobretudo quando se trata do ar e do clima compartilhados com todos os povos e criaturas que vivem no planeta”. É o que reiteram os bispos estadunidenses, que voltam a pedir com vigor o maior envolvimento das instituições nacionais no esforço da comunidade internacional para combater os danos provocados pelas mudanças climáticas.

O apelo está contido numa carta enviada ao Congresso por Dom Frank J. Dewane, Presidente da Comissão para a Justiça e o Desenvolvimento Humano, e por Dom Oscar Cantù, Presidente da Comissão Justiça e Paz.

É significativa a concomitância do apelo com a Conferência sobre Mudanças Climáticas, COP23, em andamento em Bonn, e também assume uma relevância especial, considerando a postura do Presidente Donald Trump sobre o tema.

Dois anos atrás, a Conferência de Paris COP21 produziu um acordo sobre o clima do qual os Estados Unidos anunciaram a intenção de se retirar. A decisão gerou preocupação no mundo e o episcopado demonstrou publicamente sua desilusão.

Há cerca de um mês, Dom Dewane comentou criticamente a decisão da Agência de Proteção do Ambiente de revogar o plano para a energia limpa e o programa nacional de redução das emissões de carbono nas centrais elétricas do país.

Embora reconhecendo que o Clean Power Plan (Cpp – Plano para energia limpa) não é o único mecanismo possível para enfrentar as mudanças climáticas, recordou que o governo Trump, depois de se retirar dos acordos de Paris, não propôs alguma alternativa adequada, mas simplesmente destruiu o Plano, colocando em risco milhares de pessoas, sobretudo pobres. “Nossos líderes deveriam respeitar o apelo moral do Santo Padre sobre o ambiente e propor novas leis”. 

CONTRA A EXPLORAÇÃO DOS RIOS DE CORRENTINA-BA e Concessões de outorga neste município, que impactam o MEIO AMBIENTE.

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Apoie este Abaixo-Assinado. Assine e divulgue. O seu apoio é muito importante.

 

Para: Ministério do Meio Ambiente, MPE-BA, MPF, TJ-BA, STJ e STF.

A população de Correntina-BA, repudia a exploração das águas do Rios: CORRENTINA, Arrojado, Rio do Meio, Rio Santo Antônio e Rio Guará, para fins de interesses privados, nos quais não aceitaremos de forma alguma, pois a perfuração dos poços artesianos é de retirada direta do aquífero e todos esses rios poderão ser afetados, assim como as nascentes/cabeceiras, veredas e córregos. Neste sentido estamos recolhendo estas assinaturas para levarmos aos órgãos competentes a fim de defendermos a sobrevivência desses RIOS e consequentemente da nossa população. O direito a vida é um direito constitucional e sem água não há VIDA. Assinem!

ASSINAR Abaixo-Assinado

 

“Sem Cerrado, sem água, sem vida”: participe da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

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Sem água… sem vida. Força ao povo de Correntina, Oeste da Bahia, que juntos, organizados lutam em defesa dos rios correntes e tantos que geram vida. “Assim como nós precisamos de cuidados os rios, o cerrado e a natureza toda precisa também de muito cuidado e respeito”. Juntos somos mais em defesa da vida, eis aqui também nossa missão evangelizadora. Peguemos nossa bandeira de luta e não deixemos roubar de nós toda vida presente ao nosso redor.

O Cerrado

Situado no coração do país, o Cerrado ocupa uma área de de mais de 2 milhões de km² e detém cerca de 5% da biodiversidade mundial. A área core (ou nuclear) do bioma está localizada no Planalto Central brasileiro, assim, ele desempenha um papel fundamental no processo de distribuição dos recursos hídricos pelo Brasil e outros países da América do Sul, constituindo-se o local de origem das grandes regiões hidrográficas brasileiras e do continente sul-americano, fenômeno apelidado de “efeito guarda-chuva”. Seis das principais bacias hidrográficas brasileiras são abastecidas por águas do Cerrado (Amazônica, Araguaia/Tocantins, Atlântico Norte/Nordeste, São Francisco, Atlântico Leste e Paraná/Paraguai), nele ainda estão localizados três dos principais aquíferos do país: Bambuí, Urucuia e Guarani.

A crise hídrica enfrentadas em locais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Goiás é muito influenciada pela devastação do Cerrado e má gestão de seus recursos hídricos. A água que sai da sua torneira tem grandes chances de ser do Cerrado!

O Cerrado abriga ainda uma grande variedade de povos e comunidades tradicionais, que nele vivem há mais de 12 mil anos (milhares de anos antes dos europeus pisarem por essas bandas).  São mais de 80 etnias indígenas-Xavantes, Kraô-Kanela, Tapuias, Guarani Kaiowá, Terena, Xacriabas, Apinajé, Avá-Canoeiros-, pescadores, ribeirinhos, quilombolas, quebradeiras de coco, retireiros do Araguaia, agricultores familiares, geraizeiros, dentre muitos outros. Detentores de culturas ancestrais, esses povos e comunidades convivem em harmonia com o Cerrado, o conservam e respeitam, a relação deles com o bioma é tão estreita que é a natureza que dita suas culturas, seus modos de vida, os ciclos de plantio, a alimentação e seus conhecimentos.

Os povos e comunidades tradicionais do Cerrado atuam como verdadeiros guardiões da água e da biodiversidade. 

Apesar de tamanha importância ecológica, social e econômica, a devastação da cobertura vegetal já chega a 52% do território do Cerrado e está comprometendo nascentes, rios e riachos. Ao se eliminar a vegetação, também se elimina os mananciais, a infiltração de água para o lençol freático e aquíferos também é drasticamente reduzida. Os povos e comunidades tradicionais vivem hoje na possibilidade da perda de suas terras e de suas vidas sob constante pressão por parte do governo e do agronegócio, como ocorre, por exemplo, com os índios da etnia Guarani-Kaiwá que vivem sob ataques quase diários aos seus direitos e suas vidas. A extinção desses povos significaria a morte do resto que ainda sobra do Cerrado.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

O Professor Doutor em Geografia da Universidade Estadual de Goiás, Murilo Mendonça Oliveira Souza, é coordenador o grupo Gwatá-Núcleo de Agroecologia e Educação no Campo, uma das organizações e entidades que apoiam a campanha, concedeu uma entrevista por e-mail ao Florestal Brasil e nos enviou um breve texto em que explica o que é esse movimento em prol do Cerrado:

“A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, lançada em 2016, tem como objetivo valorizar a biodiversidade e as culturas dos povos e comunidades desse bioma, lutando pela garantia de sua preservação. Surgiu com a preocupação de alertar a sociedade para os impactos que a destruição do Cerrado causam no Brasil.

A água é o mote principal da Campanha (Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida), pois o Cerrado tem papel central no abastecimento de água no país. O bioma mantém três grandes aquíferos (Guarani, Bambuí e Urucuia) e é responsável pela formação e alimentação de grandes rios do continente, como o São Francisco, o Tocantins e o Araguaia.

São objetivos da Campanha:

*Pautar e conscientizar a sociedade sobre a importância do Cerrado e os impactos dos grandes projetos do agronegócio, da mineração e de infraestrutura;

*Dar visibilidade à realidade dos Povos do Cerrado, como representantes da sociobiodiversidade, conhecedores e guardiões do patrimônio ecológico e cultural dessa região;

*Fortalecer a identidade dos Povos do Cerrado, envolvendo a população na defesa do bioma e na luta pelos seus direitos;

*Manter intercâmbio entre as comunidades do Cerrado brasileiro com as comunidades de Moçambique, na África, impactadas pelos projetos do Programa Pró-Savana.

Uma das principais ações da Campanha neste momento é a realização de Petição para pressionar a Câmara dos Deputados a votar pela aprovação da PEC 504/2010, que transforma o Cerrado e a Caatinga em Patrimônio Nacional. Os biomas Cerrado e Caatinga precisam da mesma proteção que a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica já possuem. Se o Congresso aprovar a lei que transforma o Cerrado e a Caatinga em Patrimônio Nacional, teremos mais força para impedir o desmatamento e o genocídio de nossos povos.”

Como apoiar?

Acesse o site da campanha e fique por dentro: clique aqui leia mais sobre a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Assine e compartilhe essa Petição para pressionar a Câmara dos Deputados a votar pela aprovação da PEC 504/2010, que transforma o Cerrado e a Caatinga em Patrimônio Nacional: clique aqui e acesse site para assinar a petição

*Agradecemos ao Professor Dr. Murilo Mendonça Oliveira Souza pela contribuição ao site Florestal Brasil.

Fontes: Site da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Gwatá – Núcleo de Agroecologia e Educação no Campo

http://www.florestalbrasil.com/