A pastoral da Terra e a Páscoa

A Terra é sujeito de direito à vida, à integridade e à saúde, ela também deve ser sujeito de cuidado e, portanto, de pastoral.

A espiritualidade ecológica nos ensina que a Terra, a Água e a vida no campo são sacramentos da presença amorosa do Espírito.

A espiritualidade ecológica nos ensina que a Terra, a Água e a vida no campo são sacramentos da presença amorosa do Espírito. (Reprodução/ Pixabay)

Por Marcelo Barros

Há quem se pergunte que sentido tem a Igreja Católica ter no Brasil uma Pastoral da Terra. Chama-se Pastoral o cuidado de uma Igreja Cristã representada por seus fieis leigos e seus ministros com a comunidade humana. Em uma concepção rígida e estreita, a Terra não poderia ser objeto de pastoral, porque só quem é humano pode ser evangelizado. No entanto, atualmente, a sociedade civil mais esclarecida fala em direitos da Terra, da Água e da natureza. Se como planeta e também como território rural, a Terra é sujeito de direito à vida, à integridade e à saúde, ela também deve ser sujeito de cuidado e, portanto, de pastoral. Por isso, a Pastoral da Terra é o cuidado com a Terra, a Água, a vida que a envolve e a comunidade humana que a habita.

A espiritualidade ecológica nos ensina que a Terra, a Água e a vida no campo são sacramentos da presença amorosa do Espírito. Portanto, são instrumentos e mediações da relação entre as comunidades, assim como da relação das pessoas com Deus. Cuidar dessa relação é fazer Pastoral da Terra. No Brasil, essa pastoral foi criada em 1975, quando o governo militar brasileiro falava em “ocupação da Amazônia” e se intensificava a opção por uma agricultura de exportação que deu origem ao agronegócio e significou a expulsão de muitos lavradores e suas famílias de suas terras. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) surgiu para ligar fé cristã e exigência de justiça social no campo e para ser o rosto amoroso das Igrejas na defesa dos pequenos lavradores, posseiros e sem-terra. Mais de 40 anos depois, os conflitos no campo se tornaram ainda mais agudos e é cada vez mais necessária e urgente uma estrutura de Justiça no campo. A reforma agrária pode contribuir para a redistribuição das riquezas, evitar o êxodo rural e estimular uma agricultura ecológica e sustentável. O Brasil poderia seguir o exemplo de diversos países asiáticos que, há décadas, fixaram limites para o tamanho da propriedade rural. Na Coréia do Sul é de três hectares. No Japão, varia de um a dez hectares, conforme o acesso á irrigação. (…) Já no tempo do império, Joaquim Nabuco e outros liberais falavam na necessidade de uma reforma agrária no Brasil. No entanto, essa discussão sempre foi barrada. A elite agrária brasileira é muito forte e com interesses contrários a isso. A maioria dos governos sempre favoreceu a elite rural.

A ONU proclamou o dia 17 de abril como “dia internacional da luta camponesa”, um 1º de maio dos camponeses. Assim, ela reconhece, no aniversário do massacre dos lavradores sem-terra de Eldorado de Carajás no Pará (17 de abril de 1996), um marco para a luta dos camponeses do Brasil e do mundo inteiro. Apesar de que, no Brasil, movimentos populares e especialmente de lavradores pobres continuam sendo discriminados e criminalizados por certos órgãos de imprensa, organismos internacionais idôneos e respeitados reconhecem os benefícios imensos que a caminhada dos lavradores sem terra e dos pequenos proprietários tem significado para o campo brasileiro. A revalorização das sementes crioulas, a promoção da agroecologia e a instauração de cooperativas camponesas têm respondido à esperança de todas as pessoas que trabalham por um mundo mais justo e em comunhão com a natureza. Onde há mais cooperativas deste tipo e onde elas são mais eficientes tem sido no campo. A maioria é coordenada pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST). Entidades européias,  bem informadas e competentes na defesa dos direitos humanos, têm conferido prêmios internacionais prestigiosos ao Movimento dos Trabalhadores pela prioridade que este movimento dá à educação e, concretamente, aos êxitos que tem conseguido neste setor. Mais de 70% da comida consumida pelo povo brasileiro vem da pequena agricultura familiar e não do agronegócio que existe preponderantemente para a exportação.

Nesses dias em que celebramos a Páscoa, as comunidades do campo e os movimentos sociais se unem à Igreja Católica e outras Igrejas cristãs no Brasil para protestar contra a prisão injusta do padre José Amaro Lopes de Souza, da Pastoral da Terra do Pará, pároco de Anapu e continuador do excelente trabalho da irmã Dorothy Stang, mártir na defesa do povo do campo e da Amazônia. A prisão feita sob encomenda de grandes fazendeiros e sob pretexto de acusações injustas e infundadas, reedita para nós a prisão e condenação de Jesus. A celebração da Páscoa traz para o padre Amaro e para todos nós que poderíamos ser presos com ele porque estamos na mesma caminhada e defendemos a mesma transformação do mundo vigente a certeza de que Jesus ressuscitado está conosco e nos chama para a Galileia, isso é, para o compromisso com os lavradores e com a causa da Terra.  Aos cristãos de Roma, Paulo escreveu: “Não vos conformeis com este mundo (seu sistema e suas leis), mas transformai-o” (Rm 12, 1ss). O evangelho de Jesus diz: “Procurai o reino de Deus e sua justiça e tudo o mais virá por acréscimo” (Mt 6, 33).

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: “O Evangelho e a Instituição”, Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

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