O sagrado e o humano: uma abordagem filosófica

Religião

Pensar filosoficamente sobre as manifestações sagradas perante o homem é retornar ao mundo antes do conhecimento e à expressão antes da expressão.

Repensar como o Homem se relaciona com o Sagrado é encontrar na indivisibilidade do próprio Ser o seu modo inacabado, como abertura radical através de sua encarnação no mundo e experiência de relação, vivência e convivência comunitária.

Repensar como o Homem se relaciona com o Sagrado é encontrar na indivisibilidade do próprio Ser o seu modo inacabado, como abertura radical através de sua encarnação no mundo e experiência de relação, vivência e convivência comunitária. (Elijah Hiett/ Unsplash)

Por Aldo Reis*

O propósito reflexivo demonstrado em toda a história da filosofia não consistia em elaborar uma análise única e estritamente fechada sobre o entendimento da relação entre aquilo que a Teologia monoteísta chama Deus, entretanto, o principal objetivo desta nossa incursão será o de propor a reflexão acerca do homem como sujeito encarnado, cuja existência assume o teor ontológico e se dá mediante suas relações num mundo marcado por infinitas possibilidades de experiências subjetivas e comunitárias. O que dizer sobre o humano? E a constituição de seu ser, como experiência vivida e mantida numa relação específica com o fenômeno sagrado que se lhe aparece? Discorreremos sobre a noção de relação como reintegração do ser do homem; reencontro originário no sentido radical que desfigura o onde e o quando a fim de retomar a inauguração a partir de uma nova concepção ontológica, imersa no esforço de pensar o homem na sua totalidade carnal.

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Deste modo, como antropogênese, percebemos que um novo entendimento acerca do homem implica em outro entendimento sobre o mundo como solo sob o qual o ser humano e o ser Sagrado se inscrevem, pois, para os filósofos, faz-se necessário evidenciar o entrelaçamento entre o sujeito e as constantes manifestações sagradas por meio da relação dada no mundo. Assim, colocamos o homem em sua abertura radical ao sagrado, de modo que é o próprio homem, por meio de sua relação com o mundo através das experiências, o responsável por tal entrelaçamento e inscrição ontológica de si mesmo no mundo da vida onde o Sagrado se manifesta e é provocado.

Neste sentido, pensar filosoficamente sobre as manifestações sagradas perante o homem é retornar ao mundo antes do conhecimento e à expressão antes da expressão. Tal concepção contrapõe-se àquela visão formulada pela filosofia clássica e aceita pela “velha” forma de fazer teologia. Então, pensar o homem como sujeito responsável pela relação e aproximação com o Sagrado fenomenológico está em não se comprometer com aqueles sistemas conceituais que fazem do Primeiro Motor tomista o princípio do conhecimento.

Assim, ao pensarmos numa possível subversão claramente realizada pelo pensamento filosófico, em relação à maneira clássica de se pensar sobre a relação entre o Sagrado e o Humano, ora proposta pelos velhos pensamentos, propomos uma ruptura na qual a relação entre o Sagrado e o Humano é recolocada ou redirecionada para seu lugar verdadeiro, no passado que não possuiu presente, ou seja, na própria origem atemporal. Repensar como o Homem se relaciona com o Sagrado é encontrar na indivisibilidade do próprio Ser o seu modo inacabado, como abertura radical através de sua encarnação no mundo e experiência de relação, vivência e convivência comunitária.

O homem, segundo alguns filósofos, torna-se parte das coisas que o cercam. Para o sujeito, a sua corporeidade vira signo para a relação transformando o corpo em ferramenta expressiva; mas necessita de uma prática corporal desenvolvida pela percepção e amadurecimento da visão. Uma visão que não é aquela engendrada pelo aparelho ocular mecânico. Sendo o movimento, não uma decisão completamente involuntária, mas, amadurecimento dessa visão, a relação do homem com o sagrado não atribui suas expressões ao mero ato materialista de fé, sendo que, nesse caso, o homem não se detém à pura imanência como expressão totalizadora da realidade visível. É aí onde se encontra o visível e o invisível; o dizível e o indizível; a voz e o silêncio do Sagrado que se manifesta como um fenômeno puramente subjetivo e como condição de possibilidade de abertura humana a si mesmo, ao convívio social e ao próprio Sagrado num movimento constante e circular.

Pelas experiências subjetivas e comunitárias, a partir de sua disposição e abertura transcendental, o homem abstrai daquilo que vive no mundo desdobramentos de sua realidade em movimento. Aí encontra elementos essenciais que o remetem àquilo que, como ser de busca, considera sagrado a fim de transmitir para si e para o próprio mundo a presença dessa expressão que as religiões consideram como expressão de fé. Como efeito dessa expressividade, a representação transcendental da manifestação Sagrada, a partir do homem, aparece com maior ou menor clareza na forma como se vive, na organização social particular e comunitária, na criação de níveis hierárquicos, nos gestos próprios, nas palavras, na criação de símbolos, no recolhimento meditativo, nas celebrações festivas, no modo de estar parado ou em movimento, etc.

As expressões humanas do sagrado não vivem para além do que foi naturalmente estabelecido e o inédito, proporcionado pela subjetividade da transcendência, significa uma exceção entendida pela objetividade histórica como uma contraposição à verdade, quase uma oposição ao dogma.

Na desmaterialização da expressão da relação Homem-Sagrado, o homem é tido como aquele que vive suas experiências particulares e comunitárias, e não um apropriador dessa relação, sendo a subjetividade transcendental a responsável pela aproximação de si mesmo com o Sagrado buscado e apresentado.

Deste modo, ainda que haja extenso labor para o desdobramento da reflexão, nos propomos a concluir filosoficamente que, uma vez que o Sagrado se apresenta ao homem por meio de um aparecer fenomenológico e que tal manifestação sagrada se dá puramente por meio de uma resignificação transcendental que é própria do homem, a relação entre ambos só pode ser assim definidas por meio da vivência no mundo. Entre o Homem que vive e o Sagrado que aparece está a experiência que, abstraída do meio das coisas, torna o próprio homem capaz de se relacionar com o sagrado e, com isso, o fecundo entrelaçamento entre ambos provoca a genuína experiência humana de busca constante; de busca daquilo quase inalcançável que está além de si: a ruptura com o hierático para verdadeira experiência do Sagrado.

*Aldo Reis é palestrante, empresário e escritor. Pesquisador nas áreas de antropologia, ética, fenomenologia e educação. Bacharel em Filosofia pela PUC Minas. Estudou Licenciatura em Filosofia Eclesiástica e Teologia pela Universidad de Navarra, Espanha. Ex-mestrando em Educação pela PUC Goiás.

Fonte: http://domtotal.com/noticia/1249040/2018/04/o-sagrado-e-o-humano-uma-abordagem-filosofica/

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