O Deus que está em mim.

Religião

O transcendente é o transbordamento de tudo aquilo que podemos alcançar pelos méritos de nossas faculdades físicas e mentais, e que, ao mesmo tempo, não se torna inacessível.

O encontro com o transcendente deve se realizar no esvaziamento total, na contemplação do ilimitado que existe em nós.

O encontro com o transcendente deve se realizar no esvaziamento total, na contemplação do ilimitado que existe em nós. (Ben White/ Unsplash)

Por Daniel Couto*

“O homem é na sua relação reflexiva com o mundo, com os outros e com o transcendente, isto é, ele se auto-expressa como ipseidade na medida em que se expressa como alteridade ou como ser para-si e como ser-para-o-outro (essência). Finalmente, o homem se realiza de acordo com o seu ser (existência).  (HERRERO, F. Javier) [1]

A relação do ser humano com o divino pode se estabelecer a partir de múltiplos aspectos. Enquanto alguns desses aspectos estão ligados às diversas nuances exteriores, há uma “relação íntima e pessoal” que se estabelece no que chamaremos aqui de interioridade. Em sua constituição, o ser humano é composto pelos elementos interiores, exteriores e transcendentes. Isso que o configura como tal não pode ser dissociado daquilo que ele se torna como ser-para-si. É necessário entendermos que a “personalidade em-si”, a “personalidade de-si” e a “personalidade para-si” influencia, significativamente, na relação com o transcendente divino. O transcendente será um outro desfigurado se na sua relação interior uma dessas personalidades for atribuída ao divino.

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Para entendermos melhor essas personalidades, é preciso explicitar o que, conceitualmente, cada uma delas expressa. A personalidade em-si é a construção do homem em todos os âmbitos, influenciada pelos fatores internos, externos, biológicos/genéticos, as narrativas e histórias que foram vividas e a atualidade do ser. Levando em consideração os aspectos exteriores que dizem do/sobre o ser, temos a personalidade de-si, aquela que “dizemos ao mundo” e o que é “dito sobre nós”. Ela está ancorada na personalidade em-si, mas pode ser alterada porque depende das narrativas que os “outros” constroem e/ou que o próprio ser constrói no ambiente público. Também a personalidade de-si tem elementos que podem ser controlados, como certas posturas e discursos públicos, adesões e participações, e elementos que não controlamos, como opiniões acerca de nós, características físicas, heranças culturais, e etc. O último tipo de personalidade que tratamos, a personalidade para-si, é um construto do ser para ele mesmo, uma imagem elaborada sobre quem somos ou gostaríamos de ser e alimentada a partir dos nossos elementos internos e das nossas interpretações do mundo. É essa a personalidade que se relaciona, fundamentalmente, com o transcendente pelo viés da interioridade.

O transcendente é o transbordamento de tudo aquilo que podemos alcançar pelos méritos de nossas faculdades físicas e mentais, e que, ao mesmo tempo, não se torna inacessível pois é vislumbrado como o mistério desvelado para nós. Tendo no mundo, physis, uma limitação clara das possibilidades, é no aspecto interior que a “potência ilimitada” do ser humano exercita a “extrapolação das fronteiras” e o encontro com aquilo que está “para além”. A subjetivação desse encontro é pontual, exclusiva de cada um dos seres humanos que a realiza. Por se tratar de uma relação interior, os elementos que encontramos no transcendente diz muito mais daquilo que somos, do que da “essência divina”. O fundamentalmente ilimitado entra em diálogo com os limites impostos pela nossa personalidade e vamos ascendendo, atribuindo, designando para o divino aquilo que, em nós, é restrito.

Esses dois princípios que se concatenam fazem com que o ser humano experimente a angústia e o deslumbramento. O encontro do finito com o infinito causa a sensação de vazio, pequenez e estranhamento. Espantosamente, essa transgressão acontece interiormente e o infinito parece estar dentro do próprio eu, que seria, logo, finito. Nessa angústia, invocamos as “vozes da razão” para tentar explicar o transcendente, transferindo para o discurso o que está na ordem das emoções, da sensação e da contemplação. Ao contemplar esse divino interior, conhecemos mais sobre nós mesmos, e, ao nos conhecer, conseguimos fazer a aproximação entre a personalidade para-si e a personalidade em-si.

O encontro com o transcendente deve se realizar no esvaziamento total, na contemplação do ilimitado que existe em nós. Assim, temos como inimigo constante desse relacionamento a afirmação da personalidade para-si como parâmetro constante de validação. O egocentrismo, a autorreferencialidade, a vaidade e a soberba destroem o contato com o transcendente, transformando a espiritualidade interior em uma “idolatria de si”. Participantes de uma cultura hedonista em que o prazer deve ser buscado a todo custo, e explicitamente imagética – onde a construção de um perfil social tornou-se quase uma afirmação da existência de si mesmo – a relação com este transcendente, que não corresponde aos nossos prazeres e não se apresenta concretamente, passa a ser substituída pelas definições internas do nosso “desejo e modelo de divindade” e o transcendente é substituído, de uma vez por todas, pelo “eu-divino”.

A angústia do encontro interior com o transcendente é complementada com o deslumbramento diante deste desconhecido total. Contemplando essa impossibilidade total de “ser” do ser humano, este se volta para a formação de si e busca se aproximar dessa imensidão pela meditação, recolhimento, oração e ação altruísta. Ao reconhecer que o divino pode ser encontrado pela interioridade, o ser humano pode contemplar no outro a existência dos transcendentes que, não se limitando a essas existências interiores dos seres humanos, são experiências particulares e compartilhadas por todos. O divino, neste sentido, não é propriedade de uma interioridade, mas é possibilidade de encontro para todos os seres humanos, na medida em que todos podem estabelecer esse relacionamento do limitado, com o “que tudo transborda”.

O movimento do homem que se direciona para o encontro com esse transcendente é um movimento dinâmico entre o categorial e o transcendental, o finito e o infinito, a tensão constante entre o experimentado e o idealizado, na medida em que o ideal é sempre uma possibilidade que, mesmo não alcançada, é contemplada. Na perspectiva antropológica, o homem traz essa dualidade do preenchimento e do vazio como natureza própria, e ela se expressa na relação com o transcendente que ajuda a reconhecer a dicotomia entre o que somos e o ilimitado, entrando no jogo do “movimento constante do ser”.

Não podemos, entretanto, colocar o transcendente como expressão exclusiva da interioridade, pois ele se caracteriza, fundamentalmente, como o Absoluto. É em contraposição a esse absoluto, que a universalidade do ser é colocada, na medida em que “eu o sou para a transcendência”, tanto da totalidade do ser e do cosmo, como para o universal do próprio homem. Assim, as religiões entram nesta narrativa como caminhos para esse relacionamento, que facilitam todos os aspectos do encontro com o divino, e, no que se refere ao encontro pessoal, oferecem elementos para a formação de uma personalidade de-si saudável e preparada para, interiormente, encontrar um “outro”.

O deus que está em mim, revelado na transcendência absoluta e na particularidade do meu ser, se manifesta, se relaciona e, através dos exercícios religiosos fundamentalmente humanos, se fortalece no coletivo das experiências, demonstrando a sua “pluralidade unitária”. O encontro com o divino deve extrapolar o individualismo, os anseios e particularismos e se colocar como energia motriz da vida humana, na medida em que a divindade abraça a finitude e abre espaço para o mergulho na incompreensibilidade do incomensurável. O transposto do transcendente indica a realização plena da humanidade que, no encontro consigo e com o outro-divino, alça voos no terreno dos mistérios. O deus que está em nós encanta pela melodia harmoniosa do universo e, dotado de uma racionalidade particular, entoa o canto incompreensível da eternidade.

Bibliografia:

VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Antropologia Filosófica I. São Paulo: Loyola, 1991.

______. Introdução a ética filosófica II. São Paulo: Loyola, 2000.

HERRERO, F. Javier. A recriação da tradição na Antropologia Filosófica de Pe. Vaz. Síntese. v. 30, n. 96. 2003.

[1] HERRERO, F. Javier. A recriação da tradição na Antropologia Filosófica de Pe. Vaz. Síntese. v. 30, n. 96 (2003). p. 9

*Daniel Couto, mestrando em Filosofia pela UFMG. É bacharel em Filosofia pela mesma instituição. É pesquisador nas linhas de filosofia antiga e medieval, retórica e filosofia da religião.

Fonte: http://domtotal.com/noticia/1249046/2018/04/o-deus-que-esta-em-mim/

 

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