As religiões e a mediação do Sagrado.

Religião

Em todas as religiões, a crença no sagrado, como matéria transcendente, extraordinária, metafísica, é a essência vital que movimenta todas as engrenagens do sistema.

Mais do que uma mediação comunitária, a conexão oferecida pela religião acontece de forma muito íntima e pessoal, própria de cada indivíduo.

Mais do que uma mediação comunitária, a conexão oferecida pela religião acontece de forma muito íntima e pessoal, própria de cada indivíduo. (Ashes Sitoula/ Unsplash)

Por Alex Kiefer Silva*

Na realidade contemporânea, em face das grandes transformações pelas quais passa a humanidade em escala planetária, tem se observado um importante aspecto que vai de encontro ao processo de secularização da sociedade, que é o retorno ao Sagrado em suas múltiplas formas. Se este retorno é ou não uma provável resposta ao fenômeno da secularização, o certo é que se percebe nos últimos tempos um anseio mais forte no íntimo do ser humano de se conectar ao elemento Sagrado, manifestado de inúmeros modos na sua realidade sociocultural.

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Neste aspecto, questiona-se muito o papel que a religião, como instituição terrena, possui no contexto de proporcionar aos crentes caminhos e possibilidade para esta conexão. Pensa-se que o culto divino, expresso na sua liturgia, nos seus ritos, tradições e inúmeras simbologias têm favorecido esta aproximação, mas a verdade é que o processo é ainda mais complexo e independe, muitas vezes, da pertença de um indivíduo a uma denominação religiosa específica.

A base doutrinal de toda religião evidencia o culto e a presença de Deus em suas múltiplas formas. Em todas as religiões, sejam elas monoteístas, politeístas ou não-teístas, a crença no sagrado, como matéria transcendente, extraordinária, metafísica, que está acima da compreensão humana, é a essência vital que movimenta todas as engrenagens do sistema. O rito, o culto e a devoção pessoal e coletiva são formas de aproximação do indivíduo com o Sagrado. Isso salienta a grande importância que as religiões possuem como mediadoras entre o ser humano e o divino e cumprem este papel de inúmeros modos.

Desde o início do processo de sedentarização da humanidade, as religiões surgiram como alternativas criadas para explicar as relações do ser humano com os aspectos da natureza que não podiam ser explicados e, intangíveis, só podiam ser compreendidos pela ótica do Sagrado. Nesta visão, os aspectos do culto se materializavam em preces, danças, músicas, oferendas e, para isso, cada qual a seu modo, as sociedades organizaram sistemas religiosos. Não obstante as discussões históricas travadas acerca da etmologia do termo religião, parece como certa a apreensão do termo latino religare que, segundo Lactâncio (séc. III e IV), pressupõe justamente a noção de religamento, de conexão do homem com a divindade.

A partir da constituição dos sistemas religiosos, alguns deles já inexistentes, como no caso das civilizações antigas da Ásia, da África e da Europa e também das sociedades pré-colombianas do povos maias, incas e astecas da América, observa-se que existe uma relação direta das religiões com a própria constituição do poder, que originou verdadeiras teocracias. Um exemplo disso é o que se verifica no Oriente Médio, onde países como Árabia Saudita, Iraque e Síria, dentre outros, baseiam todo o seu Estado teocrático construído sobre os pilares doutrinários do Islamismo. Percebe-se, então, que a religião, no seu aspecto sagrado, mais do que uma relação de adoração e veneração às divindades, é responsável por pautar até mesmo as relações políticas, econômicas e socioculturais de seus praticantes.

Esta mediação entre o homem e Deus, preconizado pelas religiões, não ocorre apenas no âmbito das liturgias, no espaço dos cultos públicos, mas também no âmbito individual e na prática da devoção popular, que não invalida a conexão com o sagrado. A prática solitária da fé, que nasce da crença particular de cada um numa divindade, é uma poderosa chave de conexão com o sagrado que, extrapolando a necessidade do templo físico, pode ser exercida em qualquer espaço ou lugar. Mais do que uma mediação comunitária, esta conexão oferecida pela religião acontece de forma muito íntima e pessoal, própria de cada indivíduo.

Por isso se observa, na atual conjuntura sociocultural do planeta, a cada dia, o surgimento de novas expressões religiosas, que, na sua maioria, caracterizam-se como releituras das grandes religiões. A todo momento, as doutrinas são reformuladas, reafirmadas e reconfirmadas pelos crentes, originando novas formas de culto. Contudo, este processo dinâmico originado no seio das comunidades religiosas é fruto do descontentamento do próprio ser com seu grupo religioso, ou, simplesmente, uma necessidade premente do indivíduo de experimentar com Deus uma relação mais íntima e pessoal.

Historicamente, este processo de releitura doutrinária da religião já era conhecido e ocorreu em inúmeros momentos. Foi a insatisfação com a religião e com o modo como a doutrina era tratada pela Igreja Católica, que motivou a cisão no seio do Cristianismo, originando o movimento protestante no século XVI. Por este exemplo verifica-se que o Cristianismo não foi esvaziado de sua noção sagrada, visto que os indivíduos cristãos não deixaram de se conectar a Deus por simplesmente apresentarem pontos discordantes entre si. A doutrina católica, a partir da livre interpretação bíblica, foi reavaliada por um grupo de crentes e adquiriu uma nova releitura, que originou as igrejas cristãs protestantes clássicas, como a Luterana, a Anglicana, a Metodista e mais recentemente as ramificações pentecostais e neopentecostais surgidas. Por esta releitura doutrinal, o indivíduo pode se ligar a Deus por ele mesmo, sem necessitar de intercessores. A noção medieval de que “a religião salva” não corresponde mais à realidade atual, pois “quem salva é Deus”.

Nos movimentos supra religiosos contemporâneos, como a Nova Era, este grau de conexão direta do homem com Deus é fortemente reafirmado, mas a prática de se recorrer às divindades dos mais variados panteões tradicionais também é bastante praticada. Aquele mesmo fiel que se consagra à proteção de Nossa Senhora e pede proteção a São Jorge pode também invocar o orixá Ogum e oferecer um puja devoto à Ganesha, o poderoso removedor de obstáculos do Hinduísmo, para pedir a abertura de seus caminhos e vitória contra as forças do mal. Anjos, santos e deidades são tratados como forças da luz, de grande Maestria, mediadores poderosos junto a Deus, que podem ser acessados dos modos mais diversos.

O importante aqui é salientar que o modo individual que cada um tem de vivenciar sua própria crença pode ser mais um caminho de se chegar a Deus, somado aos outros tantos apresentados por cada uma das religiões como oportunidade para se conectar com o Sagrado. Mais do que compreender a forma como esta conexão ocorre, o que realmente importa é saber que ela de fato ocorre.

*Alex Kiefer Silva é Mestre em Ciências da Religião – PUC Minas

Fonte: http://domtotal.com/noticia/1249044/2018/04/as-religioes-e-a-mediacao-do-sagrado/

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