Teria a Samarco usado as esferas do dragão para se safar do ecocídio de Mariana?

Até o presente momento, nada foi feito para auxiliar os Krenak, talvez eles precisem mais das Esferas do Dragão que a Samarco.

Há pouco mais de dois anos a realidade ambiental brasileira foi totalmente desfigurada pelo maior ecocídio de sua história, o rompimento da barragem da Samarco.

Há pouco mais de dois anos a realidade ambiental brasileira foi totalmente desfigurada pelo maior ecocídio de sua história, o rompimento da barragem da Samarco. (Divulgação)

Por Lucas Luiz Ferreira Vieira*

Sim, você não leu errado! Suspeita-se que a Samarco possua as Esferas do Dragão! Não sabe o que elas são? Explicamos: no mundialmente famoso mangá Dragon Ball, ao juntar sete artefatos específicos em formato de bola, Goku e seus amigos invocam o Dragão Shenlong, que concede qualquer desejo ao possuidor dos referidos itens.

 

Superada essa explicação, vale esclarecer o que é um ecocídio: ao final de 2016, o Tribunal Penal Internacional (TPI) decidiu que as destruições em massa do meio ambiente são crimes contra a humanidade, dessa maneira, as pessoas que suportam os efeitos de determinado ecocídio podem interpor um recurso internacional contra os responsáveis pelo crime –  sejam eles pessoas físicas, jurídicas ou até autoridades estatais – requerendo a devida reparação pelos danos materiais e/ou materiais.

Pois bem. Há pouco mais de dois anos a realidade ambiental brasileira foi totalmente desfigurada pelo maior ecocídio de sua história – já que se tratou de uma destruição em massa do meio ambiente –, o rompimento da barragem da Samarco, que devastou toda uma região e trouxe impactos em várias para o Brasil.

O âmbito que certamente foi mais afetado é o ambiental. A quantidade de lama formada é devastadora, já que milhões (!!!!!!!!) de metros cúbicos de rejeito de minério foram jorrados do complexo minerador da Samarco, esses rejeitos percorreram uma distância 663km até encontrarem o mar, já no Estado do Espírito Santo.

 

Caso essa fosse a única consequência do desastre, a Samarco e suas controladoras já mereceriam uma punição equivalente à tragédia causada. No entanto, esse não foi o único efeito do ecocídio e o que se viu foi um efeito cascata dos impactos.

Esse efeito começa já na região afetada: o distrito da cidade de Mariana, Bento Rodrigues, teve sua economia praticamente esfacelada, uma vez que o comércio de minério é o carro chefe de giro de capital na região, sendo o maior gerador de empregos diretos e indiretos da área. Assim sendo, diversas famílias se viram sem fonte de renda e passando por dificuldades que nunca haviam experimentado anteriormente.

Não só a economia foi afetada, o aspecto social do “epicentro” do desastre foi completamente abalado. Os habitantes da região possuíam, como qualquer outra comunidade, costumes antigos, tais como tomar banho de rio, caminhar na mata, entre outros; esse tipo de comportamento é passado de geração em geração. Agora, imagine-se a situação de um avô que nunca mais poderá tomar banho de rio ou fazer uma caminhada na mata com seus netos. Além disso, cerca de trezentas famílias tiveram suas casas – com suas lembranças, posses, etc. – completamente destruídas de uma hora para outra, sem qualquer possibilidade de defesa ou prevenção.

Ademais, não foram perdidas apenas casas ou costumes antigos, vidas também foram perdidas para sempre, mais precisamente dezenove, deixando para trás uma dor que só pode ser mensurada pelos entes queridos das vítimas fatais.

Avançando um pouco mais nos 663km de crime ambiental, chega-se na cidade de Resplendor, mais precisamente na tribo indígena Krenak, que necessita do Rio Doce – totalmente afetado pelo ecocídio – para sua subsistência e até para sua religiosidade: era no referido curso de água que os índios realizavam seus rituais religiosos. Até o presente momento, nada foi feito para auxiliar os Krenak, talvez eles precisem mais das Esferas do Dragão que a Samarco.

Continuando na odisseia de lama, um outro problema, mais singelo, mas não menos importante, também pode ser notado: a flora e – principalmente – a fauna foram afetadas de maneira simplesmente devastadora. Além dos animais domésticos dos moradores de Bento Rodrigues, como cachorros, gatos, galinhas, cavalos… que foram mortos ou ficaram perdidos, os animais selvagens da área afetada também sofrem as consequências: diversas espécies correm risco de extinção ou encontram dificuldades para encontrar alimento e abrigo, lutando pela sobrevivência de maneira completamente inglória. Um pedido para Shenlong poderia ajudar esses animais, que também aparentam precisar mais das esferas que a Samarco.

No fim dos 663km percorridos pelos rejeitos de minérios, chega-se até a cidade de Regência, no Espírito Santo, onde toda uma população ribeirinha teve sua vida abalada, uma vez que a lama tornou os peixes – fonte de sustento dos pescadores – impróprios para consumo e consequentemente venda. Um pedido a um deus dragão que realiza desejos não faria mal a toda essa comunidade ribeirinha.

Elucidados os impactos, passa-se a expor o que foi feito até o presente momento para que a Samarco e suas controladoras, responsáveis pelo maior ecocídio da história do país, sejam efetivamente penalizados.

No que tange à punição, sabe-se que até agora nenhuma pessoa foi presa ou responsabilizada. No âmbito criminal, a Samarco e suas controladoras se tornaram réus numa ação penal sobre as dezenove mortes em decorrência do ecocídio, contudo, o processo foi suspenso em julho do ano passado. Na área ambiental, a sorte também assiste os responsáveis: foi homologado em março de 2017 um acordo entre MPF, Samarco e suas controladoras, todavia, esse processo também fora suspenso; um outro acordo entre as partes retrocitadas foi anulado, já que a Quinta Turma do Tribunal Regional da Primeira Região entendeu, após pedido do Ministério Público Federal, que o compromisso foi firmado sem a oitiva das vítimas diretamente afetadas pelo desastre; os processos ligados com a qualidade da água do Rio Doce também encontram-se suspensos, uma vez que o Tribunal de Justiça de Minas Gerais ainda não definiu se os Juizados Especiais são competentes para os julgamentos dessas ações.

Em relação à indenização para as vítimas da tragédia, sabe-se que até o presente momento a grande maioria delas não recebeu qualquer quantia com caráter reparatório, ficando à míngua de ressarcimento, que é mais do que devido. Há vitórias isoladas, como o caso do pescador da Zona da Mata que conseguiu em caráter liminar que a Samarco o pague pensão no valor de R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos reais), tendo em vista que ficou impedido de exercer sua profissão. Contudo, em um apanhado geral, a visão que se tem é a de que as vítimas não serão recompensadas pelas perdas tão cedo.

Após essa breve exposição, volta-se a indagar: teriam os responsáveis pelo maior ecocídio da história deste país usado as Esferas do Dragão e pedido a Shenlong para se safarem de sua responsabilidade? Não seria mais responsável – e menos egoísta – pedir para que o desastre nunca tenha acontecido ou para que as vítimas recuperem o que perderam?

É difícil imaginar outra explicação plausível, já que decorridos quase dois anos e meio da tragédia, não houve qualquer prisão ou julgamento efetivo dos responsáveis.

Bem, analisando o tamanho e poderio financeiro da Samarco e de suas controladoras, talvez não seja tão difícil imaginar um motivo razoável para tamanha impunidade…

 Ah, Shelong, como seria mais fácil de resolver as coisas se você realmente existisse!

Fonte: http://domtotal.com/noticia/1248030/2018/04/teria-a-samarco-usado-as-esferas-do-dragao-para-se-safar-do-ecocidio-de-mariana/

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